Quinta-feira, 20 de Junho de 2013

Fonte: Público (ed. online)

 

A recente greve dos professores que afectou a realização do exame nacional de Português para cerca de 1/3 dos candidatos inscritos tem dado ainda bastante que falar, sendo que o principal elemento que tem sido destacado é, essencialmente a do conflito entre o direito à greve dos professores e o direito dos alunos em fazerem exame na data que estava prevista. Pelo meio fomos assistindo a um Ministro da Educação numa estrondosa demonstração demonstração de inabilidade política e de "sentido de Estado" face aos inconvenientes que uma greve iria, inevitavelmente, aos alunos.

 

Confesso que o argumento de um suposto "abuso" do direito à greve por parte dos professores não pega. A greve, (in)felizmente, serve para precisamente causar o máximo de incómodo ou de instabilidade. De certa forma, poderemos sim argumentar se as acções de luta não devem tentar trazer o "incómodo" para junto daqueles que, de facto, têm um papel na actual situação contra a qual se pretende lutar. Daí que, por exemplo, as greves levadas a cabo pelos trabalhadores das empresas de transportes (CP, Carris, etc.) possam parecer, numa análise mais detalhada, uma benesse para a própria entidade empregadora que se vê na situação de não ter de pagar o dia aos seus trabalhadores, verificar um custo reduzido da sua infraestrutura para esse dia (os autocarros não andam, os comboios não circulam, as bilheteiras não funcionam), mas tendo já garantido uma entrada substancial de capital na forma dos passes sociais adquiridos por grande parte dos utilizadores, ao inicio do mês, os mesmos que serão os mais afectados pelas paralisações.

 

No entanto, no que diz respeito aos Professores não é, porventura, tão fácil "inventar" formas alternativas de protesto às manifestações e greves no sentido tradicional do termo. Tendo em conta as próprias estruturas sindicais que integram a maioria das classes profissionais que mais acções de protesto têm promovido, a ideia de "inovação sindical" por assim dizer não ocupará um lugar cimeiro na lista de preocupações dos dirigentes sindicais. Nesse sentido, se é possível criticar um certo "anquilosamento" de alguns dirigentes e de algumas das actuais estruturas sindicais perante a possibilidade de se equacionarem novas formas de luta e de protesto, a realidade é que o recurso há greve continua a ser uma delas, legalmente enquadrada e (ainda) constitucionalmente garantida. Daí que seja preocupante as sucessivas tentativas de, mais do que discutir e debater os motivos que levam certas classes profissionais a recorrer a este instrumento, se entre frequentemente numa discussão que visa retirar em última instância o recurso à greve como ferramenta válida de contestação uma vez que este será sempre uma fonte de "incómodo", de "instabilidade" e, portanto, usado "abusivamente".

 

Nesta linha de raciocínio, a recente notícia da "pergunta" feita por deputados do PSD acerca dos "custos" do sindicalismo para o Estado, seja uma pergunta que partindo de uma suposta "preocupação" face ao período díficil que o país atravessa pode também ser o ponto de partida para um caminho bastante tortuoso acerca do que será legítimo (ou não) ser suportado pelos contribuintes. Isto porque, desse ponto de vista, toda uma série de outras questões passam a ser também passíveis de uma discussão mais aprofundada, a bem da Nação, claro. Desde logo os valores das transferências do Orçamento de Estado para os Partidos. Ou a forma como as próprias Juventudes Partidárias são financiadas. Ou os gastos incurridos pelas diferentes fundações e institutos do Estado (matéria que já há bastante tempo que despareceu do radar).

 

No fundo, tudo aquilo que nos têm dito repetidas vezes que face aos nossos actuais problemas, são "migalhas" e que não é por aí que se resolvem os problemas do país.

 

Pelos vistos, parece que afinal já é assunto passível de discussão.

 



Publicado por Bernardo Hourmat às 09:24 | link do post

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